O que é um miniconto? Bom, pra começar, é óbvio que se trata de um conto pequeno. Portanto, a concisão é fundamental. O miniconto apresenta, por exemplo, uma escassa descrição de tempos, espaços e personagens. Deve, contudo, manter a narratividade, isto é, contar uma história. O miniconto busca a condensação máxima para chegar ao essencial. A chamada minificção também se caracteriza pela fragmentação, pela experimentação linguística, pelo hibridismo de gê nero (crônica, poesia, aforismo?) e pela aproximação à poesia, como vemos no miniconto de Leonardo Sakamoto , aqui neste blog. O mais interessante do miniconto é que ele não mostra tudo, apenas sugere, como o texto de Marcelino Freire postado aqui também. No bom miniconto, há um subtexto. O leitor deve preencher as lacunas. No Brasil, o curitibano Dalton Trevisan é tido como o pioneiro do gênero. Entretanto, a pesquisadora Francilene Cechinel mostra que há uma história omitida da minificção brasileira. Para ela, U...
Postagens mais visitadas deste blog
Maralinga Oswaldo de Camargo De manhã, ainda a cidade escura, meu pai me acordou. Trouxe o meu peniquinho, pediu que eu mijasse depressa e me lavasse ainda mais depressa, que a casa do Dr. era longe e eu não podia atrasar, senão ficava mostrado que a gente não se interessou. Então engoli meu café, peguei o saco com minha roupa, os dois boizinhos de sabugo e, atrás de meu pai, saímos de casa, que ficou solitária dentro da neblina matinal e entre as três mangueiras desfolhadas pe la geada do mês. Não me esqueço que meu pai trouxe o peniquinho, ato desusado, delicadeza de quem tinha desamparos por dentro e muita coisa doendo, por me deixar ir tão pequeno e magrelo ao povoado do Dr., lá servir e tentar ser alguém em Maralinga. Então olhei os sobrados, os terraços, a matriz de São Gonçalo, com sua barriga de azulejo azul, a praça, que os jeremins tentavam atapetar com a floração amarela, após o bravo frio que desrespeitara os jardins e as latinhas com gerânios nas janelas. Olhei o...
Rota de Colisão Marina Colasanti De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas me surpreendo jovem velha e madura ao mesmo tempo. E ainda aprendo a viver enquanto avanço na rota em cujo fim a vida colide com a morte. Marina Colasanti - Rota de Colisão - Rocco, 1993.

Comentários
Postar um comentário