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Mostrando postagens com o rótulo escritores paulistas
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Maralinga Oswaldo de Camargo De manhã, ainda a cidade escura, meu pai me acordou. Trouxe o meu peniquinho, pediu que eu mijasse depressa e me lavasse ainda mais depressa, que a casa do Dr. era longe e eu não podia atrasar, senão ficava mostrado que a gente não se interessou. Então engoli meu café, peguei o saco com minha roupa, os dois boizinhos de sabugo e, atrás de meu pai, saímos de casa, que ficou solitária dentro da neblina matinal e entre as três mangueiras desfolhadas pe la geada do mês. Não me esqueço que meu pai trouxe o peniquinho, ato desusado, delicadeza de quem tinha desamparos por dentro e muita coisa doendo, por me deixar ir tão pequeno e magrelo ao povoado do Dr., lá servir e tentar ser alguém em Maralinga. Então olhei os sobrados, os terraços, a matriz de São Gonçalo, com sua barriga de azulejo azul, a praça, que os jeremins tentavam atapetar com a floração amarela, após o bravo frio que desrespeitara os jardins e as latinhas com gerânios nas janelas. Olhei o...
Infância Um gosto de amora comida com sal. A vida chamava-se "Agora". Guilherme de Almeida
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O jornalista Leonardo Sakamoto é conhecido por seus artigos de cunho político e por seu ativismo social no combate ao trabalho escravo. Pouca gente conhece sua produção literária. Aqui, um miniconto pungente e cheio de lirismo. Miniconto sem título Fazedor de arco-íris, seu avô dizia que era dele a tarefa de pintar os céus depois de tempestades. Ao fim de um aguaceiro, ele se refugiava no velho moinho, girava a roda d’água e uma curva colorida se abria no horizonte. Orgulho. Q uem além dela tinha um avô poderoso assim? Até que, em uma tarde sem nuvens, o coração do velho desabou sobre a plantação. Ela, em prantos, correu para o moinho a fim de pintar para ele. Girou, girou, girou, mas nada. Vendo tristeza tão sincera, o céu se encolheu e chorou. E o mais belo arco-íris que o mundo já viu se fez Leonardo Sakamoto - Pequenos contos para começar o dia - Expressão Popular, 2012.  
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Uma narrativa concisa, certeira e espantosa de um grande jovem escritor. Questão de postura Rodrigo Ciríaco O professor observa o menino no canto da sala, afastado. Sozinho. Suando frio. Esfregando a mão dentro da calça. Estranha. Aproxima-se, com calma. O aluno de cabeça baixa, concentrado. A mão dentro da calça. Esfregando. Não percebe a chegada do professor. Assusta. Coloca de volta, rápido. Sobe o zíper. O professor, meio sem jeito, pergunta: - O que é isso, Lucas? O aluno não vê outra solução. Abaixa o zíper. Mostra o revólver. - Ah! Tudo bem. Pen sei que tivesse fazendo outra coisa. - Ô, que isso. Tá tirando, prussô? Rodrigo Ciríaco – Te pego lá fora – Dsop, 2014.  
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Um dos contos mais bonitos - e perturbadores - dessa grande contista, que acaba de completar 97 anos . Venha ver o pôr do sol Lygia Fagundes Telles Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde. Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante. – Minha querida Raquel. Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.   – Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que ideia, Ricardo, que ideia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima. Ele sorriu entre malicioso e ingênuo. – Jamais, não é? Pensei que vi...
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Uma divertida crônica de um autor que foi ícone de toda uma geração.   Desculpe, morri Marcelo Rubens Paiva Atendo o telefone e: "Boa noite, é... Marcelo?" "Quem é?" "É você?" "Quem está falando?" "Puxa, que bom, eu precisava tanto falar com você, não imagina o trabalhão que deu pra descolar o seu..." "Quer falar com quem?" "Com você mesmo, Cariri." "Cariri?" "Não era o teu apelido em Santos?" "Como você sabe?" "Pesquisei. Apelido louco. Por que te deram esse apelido?" "Olha, o que você quer?" "Sou estudante e estou fazendo um trabalho." "Como você descolou o meu telefone?" "Desculpe, Cariri. A pessoa que me deu pediu para não ser identificada. Você é uma figurinha difícil de achar, hein? Marcelão, Marcelão... Como vão as coisas?" "Indo." "O seu Corinthians, hein?" "Meu e de muita gente." "E...
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Para descontrair um pouco, em tempos tão difíceis... esta deliciosa crônica de Antonio Prata. É pavê... Antonio Prata Tem gente que se irrita, que suspira e vira os olhos como um filósofo vendo Chapolin ou um cientista lendo o horóscopo, mas eu não. Eu sorrio feliz e contente toda vez que escuto alguém perguntar, diante de um pavê, com a segurança do primeiro ser humano tocado pela luz da inspiração: "É pavê ou pacomê?!". Que coragem. Vivemos sob a égide do grande Deus Photoshop. Começamos tirando as celulites das bundas, passamos a cortar as estrias dos discursos e hoje removemos manchinha por manchinha de nossas facebúquicas personalidades. Nesta era da performance, em que cada ideia é cuidadosamente escanhoada antes de ser posta no mundo, em que cada julgamento é miligramicamente pesado para se avaliar os seus efeitos – seus likes, deslikes e retuítes –, enfim, nestes tempos bicudos em que a canalhice é perdoada, mas a ingenuidade não, o cidadão me sai c...
Pronto nos olhos, o pranto só espera a notícia João Carrascoza
Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada Lygia Fagundes Telles
Olha, pai, eu tentei, mas acho que não deu muito certo não... Antonio Prata