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O que eu mais gosto nas crônicas de Martha Medeiros é a fluidez, a simplicidade, a leveza de seu texto. Aqui, a partir do nada, ela faz uma reflexão sobre a arte e a vida. Mulher escrevendo enquanto toma chá   Sempre fico insegura na hora de intitular o que escrevo. Meus poemas nunca tiveram título. Nos livros, é a última coisa que escolho (em meio a dúvidas infinitas). E os das colunas refletem a minha preguiça: deveria me esforçar mais para atrair a atenção do leitor, mas depoi s de já ter me dedicado o suficiente na elaboração do texto, o título é praticamente um resumo do assunto tratado, sem nenhuma acrobacia literária ou jornalística. Isso explica o fato de eu admirar a simplicidade do título de inúmeras telas expostas nos museus do mundo. São praticamente legendas: Vista de Paris do Apartamento de Theo é o nome do quadro em que Van Gogh mostra os telhados que seu irmão, Theo, vislumbrava todos os dias, ou Campo de Trigo com Cotovia, onde o mesmo Van Gogh, com sua...
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Um lindo poema de Regina Azevedo Porque poesia tem que estar na rua...
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Rota de Colisão Marina Colasanti   De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas me surpreendo jovem velha e madura ao mesmo tempo. E ainda aprendo a viver enquanto avanço na rota em cujo fim a vida colide com a morte. Marina Colasanti - Rota de Colisão - Rocco, 1993.  
nas mãos inspiradas nascem antigas palavras com novo matiz Helena Kolody
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Um dos contos mais bonitos - e perturbadores - dessa grande contista, que acaba de completar 97 anos . Venha ver o pôr do sol Lygia Fagundes Telles Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde. Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante. – Minha querida Raquel. Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.   – Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que ideia, Ricardo, que ideia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima. Ele sorriu entre malicioso e ingênuo. – Jamais, não é? Pensei que vi...
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O dia em que Willian Bonner chorou Cidinha da Silva O Jornal Nacional aproximava-se do fim e seguindo o roteiro diário viria algo de impacto para encerrar a espetacularização da notícia no horário de maior audiência dos telejornais. O narrador de voz bonita, terno impecável e cabelos charmosamente grisalhos anuncia um caso surpreendente no sertão do Brasil. Um adolescente de vida miserável é flagrado ao roubar um bombom na vendinha da região. A repórter responsável pela cobertura percebe que ali há uma boa história para entreter os telespectadores fiéis e resolve levar a notícia do roubo à mãe do garoto para compor o drama que antecipará a novela das nove. O cinegrafista, depois de ter filmado o menino cabisbaixo e mudo na delegacia, inclui as devidas tarjas no rosto, pois o pequeno infrator tem apenas 13 anos, fecha dramaticamente o ângulo da câmera no bombom solitário sobre a mesa do delegado e, junto com a repórter, ruma para a casa daquela que roubaria a cena e emo...
Uma vida inteira pela frente. O tiro veio por trás. Cíntia Moscovich
Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada Lygia Fagundes Telles
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Poesia na rua Giovanna Lima Graças à jornalista Jéssica Balbino , conheci a incrível poeta de rua (seria este o termo?) Giovanna Lima. Isso aconteceu no inesquecível "Poesia na Laje", comandado pela jornalista no maravilhoso Sesc Pompeia. Pois a jovem curitibana imprime sua obra pelas ruas da capital paranaense, provando que o estado sulino não vive só de juiz retrógrado e oportunista. Bom, ela já foi processada pela prefeitura local, acusada de 'vandalismo'! Respondeu com mais poesia. Vejam como Giovanna forja sua poesia a diferentes plataformas, de maneira inteligente.
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Um lindo poema de Olga Savary , falecida no último dia 15 de maio, vítima do coronavírus. Além de mim Olga Savary [1933-2020] Quero apenas Além de mim, quero apenas essa tranquilidade de campos de flores e este gesto impreciso recompondo a infância. Além de mim – e entre mim e meu deserto – quero apenas silêncio, cúmplice absoluto de meu verso, tecendo a teia do vestígio com cuidado de aranha.
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Uma poeta do Rio Grande do Norte Regina Azevedo sem título Quando você olhar pra essas pernas saiba que são pernas de ciranda pernas que marcham e que dançam pernas que enfrentam homens armados pernas que se entrelaçam em outras pernas pernas pernas pernas pernas de luta e de festa pernas de explorar o palco pernas parecidas com as suas pernas estendidas na rua pernas que derrubam as suas quando olhar pra essas pernas saiba que são minhas e não suas Regina Azevedo – Livro Pirueta – 2017.
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Sangra Raquel Almeida   O que me resta Se não sangrar minhas dores Se não desaguar minhas mágoas Se não gritar minhas fúrias O que restaria Das nossas poesias Que amam e sofrem Sofrem e amam Que rebelam no estrondar De chicotes, tiroteios, Coturnadas na minha cara Dói, como dói! Ainda assim, Construo pontes Pra que não doa mais. Raquel Almeida - Sagrado Sopro - do solo que renasço - Elo da Corrente Edições, 2014.  Sangra ¿ Qué me queda? Si no sangro mis dolores Si no desaguo mis penas Si no grito mis furias ¿Qué quedaría De nuestras poesías? Que aman y sufren Sufren y aman Que se rebelan en el estallido De látigos, tiroteos, Patadas en mi cara Duele, !Ah, cómo duele! Aún así, Erijo puentes Para que no duela más. Tradução Alex Criado
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Drumundana Alice Ruiz e agora maria? o amor acabou a filha casou o filho mudou teu homem foi pra vida que tudo cria a fantasia que você sonhou apagou à luz do dia e agora maria? vai com as outras vai viver com a hipocondria. Alice Ruiz - Dois em um - Iluminuras, 2008.
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Zero a Zero Dinha " Mas nas barrigas das meninas inda o sol ainda brilha - rancoroso carnaval. ” Nossas mães criam seus filhos para serem meninos e fortes. Entretanto o consumo entretanto o Estado cão magro - roem seus ossos tão fundo que até o descanso, o último tem que ser autorizado. O Estado roeu Rivaldo Jefferson Ricardo e guardou outros tantos ainda. Depois voltou pra guardar a casa de orelhas [surpreendidas: Nesse intervalo, Amanda gerou Ricardo. Angelina devolveu Rivaldo, salvou Jefferson no Fagner e dobrou, por precaução, a quantidade de Lucas. De olho, o cachorro gordo percebe nas barrigas da família pequenas revoluções repondo a morte com vida. Repondo Ricardo a Ricardo Rivaldo a Rivaldo dobrando os soldados perpetuando a ira e a lira. Dinha - Zero a Zero - 15 poemas contra o genocídio da população negra - Me Parió Revolução, 2015. Cero-Cero “ Pero en los vientres de las chic...