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Mostrando postagens com o rótulo Crônica
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O que eu mais gosto nas crônicas de Martha Medeiros é a fluidez, a simplicidade, a leveza de seu texto. Aqui, a partir do nada, ela faz uma reflexão sobre a arte e a vida. Mulher escrevendo enquanto toma chá   Sempre fico insegura na hora de intitular o que escrevo. Meus poemas nunca tiveram título. Nos livros, é a última coisa que escolho (em meio a dúvidas infinitas). E os das colunas refletem a minha preguiça: deveria me esforçar mais para atrair a atenção do leitor, mas depoi s de já ter me dedicado o suficiente na elaboração do texto, o título é praticamente um resumo do assunto tratado, sem nenhuma acrobacia literária ou jornalística. Isso explica o fato de eu admirar a simplicidade do título de inúmeras telas expostas nos museus do mundo. São praticamente legendas: Vista de Paris do Apartamento de Theo é o nome do quadro em que Van Gogh mostra os telhados que seu irmão, Theo, vislumbrava todos os dias, ou Campo de Trigo com Cotovia, onde o mesmo Van Gogh, com sua...
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Terapia de casal Gregório Duvivier Consultório de um terapeuta. Ele e ela estão sentados no divã. TERAPEUTA. Acho que o primeiro passo é a gente tentar entender o que causou esta briga. Vocês lembram como começou o estranhamento? ELA. Acho que tudo começou quando ele falou que queria o divórcio TERAPEUTA. Você falou que queria o divórcio? ELE. Falei. Mas antes ela me deu um soco na cara. TERAPEUTA. Você deu um soco na cara dele? ELA. Dei. Mas antes ele falou que eu estava acima do peso. TERAPEUTA. Você falou... ELE. Falei. Mas antes ela me chamou de brocha. ELA. Mas antes ele tinha brochado. ELE. Mas antes a gente estava prestes a transar e ela disse que eu era um desempregado medíocre que tinha bafo de cigarro e gengivite. O terapeuta tenta intervir, mas eles encavalam as respostas. ELA. Mas antes a gente estava prestes a transar e ele me pediu pra xingar ele. ELE. Mas antes a gente não transava há três meses e eu achei que um palavrão podia dar ...
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Quem não gosta de Luis Fernando Veríssimo?     Açúcar emprestado Luis Fernando Veríssimo Vizinhos de porta, ele o 41 e ela o 42. Primeiro lance: ela. Bateu na porta dele e pediu açúcar emprestado para fazer um pudim. Segundo lance: ela de novo. Bateu na porta dele e perguntou se ele não queria provar o pudim. Afinal, era coautor. Terceiro lance: ele. Hesitou, depois perguntou se ela não queria entrar. Ela entrou, equilibrando o prato do pudim longe do peito para não derramar a calda. – Não repara a bagunça... – O meu é pior. – Você mora sozinha? Sabia que ela morava sozinha. Perguntara ao porteiro logo depois de se mudar. A do 42? Dona Celinha? Mora sozinha. Morava com a mãe mas a mãe morreu. Boa moça. Um pouco... E o porteiro fizera um gesto indefinido com a mão, sem dizer o que a moça era. Fosse o que fosse, era só um pouco. A conversa começou com apresentações e troca de informações – “Nélio”, “Celinha”, “Capricórnio”, “Leão”, “Daqui mesmo”, “...
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Uma divertida crônica de um autor que foi ícone de toda uma geração.   Desculpe, morri Marcelo Rubens Paiva Atendo o telefone e: "Boa noite, é... Marcelo?" "Quem é?" "É você?" "Quem está falando?" "Puxa, que bom, eu precisava tanto falar com você, não imagina o trabalhão que deu pra descolar o seu..." "Quer falar com quem?" "Com você mesmo, Cariri." "Cariri?" "Não era o teu apelido em Santos?" "Como você sabe?" "Pesquisei. Apelido louco. Por que te deram esse apelido?" "Olha, o que você quer?" "Sou estudante e estou fazendo um trabalho." "Como você descolou o meu telefone?" "Desculpe, Cariri. A pessoa que me deu pediu para não ser identificada. Você é uma figurinha difícil de achar, hein? Marcelão, Marcelão... Como vão as coisas?" "Indo." "O seu Corinthians, hein?" "Meu e de muita gente." "E...
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Para descontrair um pouco, em tempos tão difíceis... esta deliciosa crônica de Antonio Prata. É pavê... Antonio Prata Tem gente que se irrita, que suspira e vira os olhos como um filósofo vendo Chapolin ou um cientista lendo o horóscopo, mas eu não. Eu sorrio feliz e contente toda vez que escuto alguém perguntar, diante de um pavê, com a segurança do primeiro ser humano tocado pela luz da inspiração: "É pavê ou pacomê?!". Que coragem. Vivemos sob a égide do grande Deus Photoshop. Começamos tirando as celulites das bundas, passamos a cortar as estrias dos discursos e hoje removemos manchinha por manchinha de nossas facebúquicas personalidades. Nesta era da performance, em que cada ideia é cuidadosamente escanhoada antes de ser posta no mundo, em que cada julgamento é miligramicamente pesado para se avaliar os seus efeitos – seus likes, deslikes e retuítes –, enfim, nestes tempos bicudos em que a canalhice é perdoada, mas a ingenuidade não, o cidadão me sai c...
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O dia em que Willian Bonner chorou Cidinha da Silva O Jornal Nacional aproximava-se do fim e seguindo o roteiro diário viria algo de impacto para encerrar a espetacularização da notícia no horário de maior audiência dos telejornais. O narrador de voz bonita, terno impecável e cabelos charmosamente grisalhos anuncia um caso surpreendente no sertão do Brasil. Um adolescente de vida miserável é flagrado ao roubar um bombom na vendinha da região. A repórter responsável pela cobertura percebe que ali há uma boa história para entreter os telespectadores fiéis e resolve levar a notícia do roubo à mãe do garoto para compor o drama que antecipará a novela das nove. O cinegrafista, depois de ter filmado o menino cabisbaixo e mudo na delegacia, inclui as devidas tarjas no rosto, pois o pequeno infrator tem apenas 13 anos, fecha dramaticamente o ângulo da câmera no bombom solitário sobre a mesa do delegado e, junto com a repórter, ruma para a casa daquela que roubaria a cena e emo...
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Além de ser considerado um dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade foi também contista e um cronista dos melhores. Abaixo, uma divertida crônica de sua autoria. Ou seria um conto? Talvez um croniconto: Caso de chá Carlos Drummond de Andrade A casa da velha senhora fica na encosta do morro, tão bem situada que ali se aprecia o bairro inteiro, e o mar é uma de suas riquezas visuais. Mas o terreno em volta da casa vive ao abandono. O jardineiro despediu-se há tempos; hortelão, nã o se encontra nem por milagre. A velha moradora resigna-se a ver crescer a tiririca na propriedade que antes era um brinco. Até cobra começou a passear entre a folhagem, com indolência; é uma cobrinha de nada, mas sempre assusta. O verdureiro que faz ponto na rua lá embaixo ofereceu-se para matá-la. A boa senhora reluta, mas não pode viver com uma cobra tomando banho de sol junto ao portão, e a bicha é liquidada a pau. Bom rapaz, o verdureiro, cheio de atenções para com os fregues...
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Apresentamos uma das mais belas crônicas de Rubem Braga . Mar A primeira vez que eu vi o mar eu não estava sozinho. Estava no meio de um bando enorme de meninos. Nós tínhamos viajado para ver o mar. No meio de nós havia apenas um menino que já o tinha visto. Ele nos contava que havia três espécies de mar: o mar mesmo, a maré, que é menor que o mar, e a marola, que é menor que a maré. Logo a gente fazia ideia de um lago enorme e duas lagoas. Mas o menino explicava qu e não. O mar entrava pela maré e a maré entrava pela marola. A marola vinha e voltava. A maré enchia e vazava. O mar às vezes tinha espuma e às vezes não tinha. Isso perturbava ainda mais a imagem. Três lagoas mexendo, esvaziando e enchendo, com uns rios no meio, às vezes uma porção de espumas, tudo isso muito salgado, azul, com ventos. Fomos ver o mar. Era de manhã, fazia sol. De repente houve um grito: o mar! Era qualquer coisa de largo, de inesperado. Estava bem verde perto da terra, e mais longe estava azul....