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Mostrando postagens com o rótulo Escritores mineiros
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A Casa Cacaso (Antônio Carlos de Brito) Na minha infância quando chovia batia sobre o telhado uma pancada macia a noite vinha de fora e dentro de casa caía meu olho esquerdo dormia enquanto o outro velava havia portas rangendo lá fora o vento miava no fundo da noite a casa parece que navegava meu coração passeava por uma sala sombria por este lado se entrava por este outro se olhava e por nenhum se saía Na minha infância quando chovia batia sobre o meu peito uma suave agonia a noite vinha de longe e dentro da gente caía meu pai que sempre saía numa viagem calada havia vozes chamando na boca da madrugada no fundo da noite a casa parece que despertava assombração que passava no sopro da ventania por este lado se entrava por este outro se olhava e por nenhum se saía Cacaso - Mar de mineiro - 1982  
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O dia em que Willian Bonner chorou Cidinha da Silva O Jornal Nacional aproximava-se do fim e seguindo o roteiro diário viria algo de impacto para encerrar a espetacularização da notícia no horário de maior audiência dos telejornais. O narrador de voz bonita, terno impecável e cabelos charmosamente grisalhos anuncia um caso surpreendente no sertão do Brasil. Um adolescente de vida miserável é flagrado ao roubar um bombom na vendinha da região. A repórter responsável pela cobertura percebe que ali há uma boa história para entreter os telespectadores fiéis e resolve levar a notícia do roubo à mãe do garoto para compor o drama que antecipará a novela das nove. O cinegrafista, depois de ter filmado o menino cabisbaixo e mudo na delegacia, inclui as devidas tarjas no rosto, pois o pequeno infrator tem apenas 13 anos, fecha dramaticamente o ângulo da câmera no bombom solitário sobre a mesa do delegado e, junto com a repórter, ruma para a casa daquela que roubaria a cena e emo...
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Além de ser considerado um dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade foi também contista e um cronista dos melhores. Abaixo, uma divertida crônica de sua autoria. Ou seria um conto? Talvez um croniconto: Caso de chá Carlos Drummond de Andrade A casa da velha senhora fica na encosta do morro, tão bem situada que ali se aprecia o bairro inteiro, e o mar é uma de suas riquezas visuais. Mas o terreno em volta da casa vive ao abandono. O jardineiro despediu-se há tempos; hortelão, nã o se encontra nem por milagre. A velha moradora resigna-se a ver crescer a tiririca na propriedade que antes era um brinco. Até cobra começou a passear entre a folhagem, com indolência; é uma cobrinha de nada, mas sempre assusta. O verdureiro que faz ponto na rua lá embaixo ofereceu-se para matá-la. A boa senhora reluta, mas não pode viver com uma cobra tomando banho de sol junto ao portão, e a bicha é liquidada a pau. Bom rapaz, o verdureiro, cheio de atenções para com os fregues...
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Da calma e do silêncio Conceição Evaristo Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem, quero mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano do verbo, para assim versejar o âmago das coisas. Quando meu olhar se perder no nada, por favor, não me despertem, quero reter, no adentro da íris, a menor sombra, do ínfimo movimento. Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não me forcem. Caminhar para quê? Deixem-me quedar, deixem-me quieta, na aparente inércia. Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra. Conceição Evaristo - Poemas da recordação e outros movimentos - Ed. Malê, 2017.