Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Literatura Negro-brasileira
Imagem
Maralinga Oswaldo de Camargo De manhã, ainda a cidade escura, meu pai me acordou. Trouxe o meu peniquinho, pediu que eu mijasse depressa e me lavasse ainda mais depressa, que a casa do Dr. era longe e eu não podia atrasar, senão ficava mostrado que a gente não se interessou. Então engoli meu café, peguei o saco com minha roupa, os dois boizinhos de sabugo e, atrás de meu pai, saímos de casa, que ficou solitária dentro da neblina matinal e entre as três mangueiras desfolhadas pe la geada do mês. Não me esqueço que meu pai trouxe o peniquinho, ato desusado, delicadeza de quem tinha desamparos por dentro e muita coisa doendo, por me deixar ir tão pequeno e magrelo ao povoado do Dr., lá servir e tentar ser alguém em Maralinga. Então olhei os sobrados, os terraços, a matriz de São Gonçalo, com sua barriga de azulejo azul, a praça, que os jeremins tentavam atapetar com a floração amarela, após o bravo frio que desrespeitara os jardins e as latinhas com gerânios nas janelas. Olhei o...
Imagem
O dia em que Willian Bonner chorou Cidinha da Silva O Jornal Nacional aproximava-se do fim e seguindo o roteiro diário viria algo de impacto para encerrar a espetacularização da notícia no horário de maior audiência dos telejornais. O narrador de voz bonita, terno impecável e cabelos charmosamente grisalhos anuncia um caso surpreendente no sertão do Brasil. Um adolescente de vida miserável é flagrado ao roubar um bombom na vendinha da região. A repórter responsável pela cobertura percebe que ali há uma boa história para entreter os telespectadores fiéis e resolve levar a notícia do roubo à mãe do garoto para compor o drama que antecipará a novela das nove. O cinegrafista, depois de ter filmado o menino cabisbaixo e mudo na delegacia, inclui as devidas tarjas no rosto, pois o pequeno infrator tem apenas 13 anos, fecha dramaticamente o ângulo da câmera no bombom solitário sobre a mesa do delegado e, junto com a repórter, ruma para a casa daquela que roubaria a cena e emo...
Imagem
O poema foi escrito em 1956, mas infelizmente continua atual até hoje. Nossa homenagem ao decano da literatura negro-brasileira. Protesto Carlos de Assumpção Mesmo que voltem as costas Às minhas palavras de fogo Não pararei de gritar Não pararei Não pararei de gritar Senhores Eu fui enviado ao mundo Para protestar Mentiras ouropéis nada Nada me fará calar Senhores Atrás do muro da noite Sem que ninguém o perceba Muitos dos meus ancestrais Já mortos há muito tempo Reúnem-se em minha casa E nos pomos a conversar Sobre coisas amargas Sobre grilhões e correntes Que no passado eram visíveis Sobre grilhões e correntes Que no presente são invisíveis Invisíveis mas existentes Nos braços no pensamento Nos passos nos sonhos na vida De cada um dos que vivem Juntos comigo enjeitados da Pátria Senhores O sangue dos meus avós Que corre nas minhas veias São gritos de rebeldia Um dia talvez alguém perguntará Comovido ante meu sofrimento Quem é que está g...
Imagem
Sangra Raquel Almeida   O que me resta Se não sangrar minhas dores Se não desaguar minhas mágoas Se não gritar minhas fúrias O que restaria Das nossas poesias Que amam e sofrem Sofrem e amam Que rebelam no estrondar De chicotes, tiroteios, Coturnadas na minha cara Dói, como dói! Ainda assim, Construo pontes Pra que não doa mais. Raquel Almeida - Sagrado Sopro - do solo que renasço - Elo da Corrente Edições, 2014.  Sangra ¿ Qué me queda? Si no sangro mis dolores Si no desaguo mis penas Si no grito mis furias ¿Qué quedaría De nuestras poesías? Que aman y sufren Sufren y aman Que se rebelan en el estallido De látigos, tiroteos, Patadas en mi cara Duele, !Ah, cómo duele! Aún así, Erijo puentes Para que no duela más. Tradução Alex Criado
Imagem
Zero a Zero Dinha " Mas nas barrigas das meninas inda o sol ainda brilha - rancoroso carnaval. ” Nossas mães criam seus filhos para serem meninos e fortes. Entretanto o consumo entretanto o Estado cão magro - roem seus ossos tão fundo que até o descanso, o último tem que ser autorizado. O Estado roeu Rivaldo Jefferson Ricardo e guardou outros tantos ainda. Depois voltou pra guardar a casa de orelhas [surpreendidas: Nesse intervalo, Amanda gerou Ricardo. Angelina devolveu Rivaldo, salvou Jefferson no Fagner e dobrou, por precaução, a quantidade de Lucas. De olho, o cachorro gordo percebe nas barrigas da família pequenas revoluções repondo a morte com vida. Repondo Ricardo a Ricardo Rivaldo a Rivaldo dobrando os soldados perpetuando a ira e a lira. Dinha - Zero a Zero - 15 poemas contra o genocídio da população negra - Me Parió Revolução, 2015. Cero-Cero “ Pero en los vientres de las chic...
Imagem
Da calma e do silêncio Conceição Evaristo Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem, quero mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano do verbo, para assim versejar o âmago das coisas. Quando meu olhar se perder no nada, por favor, não me despertem, quero reter, no adentro da íris, a menor sombra, do ínfimo movimento. Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não me forcem. Caminhar para quê? Deixem-me quedar, deixem-me quieta, na aparente inércia. Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra. Conceição Evaristo - Poemas da recordação e outros movimentos - Ed. Malê, 2017.