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Pra que serve a poesia? A pergunta pode parecer sem sentido, é verdade, mas a poesia acompanha o ser humano há milênios. Na cultura ocidental, pelo menos, desde os gregos antigos. Certamente, a poesia também está presente em outras matrizes culturais desde tempos imemoriais. A poesia está na vida e não depende do poeta. Prescinde, inclusive, da linguagem. O nascimento de uma criança é poesia, a mudança das estações, um olhar apaixonado, o abraço solidário, tudo isso é poesia. M anoel Bandeira dizia que " a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas ". A poeta entra em cena quando busca concretizar em palavras a poesia que está na vida, na realidade material ou simbólica. O artista da palavra, por sua sensibilidade e consciência aguda, é provocado por um acontecimento, uma situação, um sentimento ou uma simples ideia, internaliza esse estímulo, reelabora e o devolve em palavras. Aí, surge o poema. O poema...
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A literatura como bálsamo   Vivemos tempos tão difíceis, que nos perguntamos se a literatura é realmente necessária. Se não seria uma espécie de escapismo, de fuga da realidade. Ora, mas será que não é legítimo se ausentar um pouco de realidade tão opressora? Ainda mais neste momento histórico em que somos governados por um genocida perverso. A literatura, assim como outras artes, não pode perder o compromisso com seu tempo, com as dores de seu povo. A literatura pode – e deve – ser lança, porrete, megafone, punhos erguidos. Mas pode também ser unguento, carinho, afago, braços abertos. Mesmo que os tempos sejam sombrios, que aquilo a que chamamos de realidade seja sufocante, isto não significa que não possamos sorrir. É verdade que rir ou gargalhar no momento atual pode parecer escárnio ou, na melhor das hipóteses, indiferença com a tragédia do outro. Mas sorrir, aquele sorriso cúmplice, reforça a ideia de “que ninguém solta a mão de ninguém”, lembram-se? Um conto engra...
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O que faz um bom conto? Os contos são um gênero narrativo quase tão antigo quanto o ser humano. Eles remontam as conversas ao redor do fogo, quando os mais antigos transmitiam, por meio de histórias, os valores e tradições de seu povo. No início, eram apenas narrativas orais. Muitos séculos depois, alguns escritores começaram a coletar essas histórias e colocá-las no papel. Estamos falando da cultura europeia, mas todos os povos tiveram em mais alta conta seus contadores de his tória. Na África, por exemplo, os griots e as griottes são guardiães da palavra. São responsáveis por transmitir não só as histórias, mas também as tradições e conhecimentos de seus povos de geração em geração. Contos de fadas Na França, quem primeiro recolheu narrativas populares foi Charles Perrault, no século 17. Mais de cem anos depois, dois irmãos passaram a registrar as histórias do meio rural da Alemanha – que ainda não era Alemanha. Eram os irmãos Grimm. Estes são os que conhecemos ho...
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Quem não gosta de Luis Fernando Veríssimo?     Açúcar emprestado Luis Fernando Veríssimo Vizinhos de porta, ele o 41 e ela o 42. Primeiro lance: ela. Bateu na porta dele e pediu açúcar emprestado para fazer um pudim. Segundo lance: ela de novo. Bateu na porta dele e perguntou se ele não queria provar o pudim. Afinal, era coautor. Terceiro lance: ele. Hesitou, depois perguntou se ela não queria entrar. Ela entrou, equilibrando o prato do pudim longe do peito para não derramar a calda. – Não repara a bagunça... – O meu é pior. – Você mora sozinha? Sabia que ela morava sozinha. Perguntara ao porteiro logo depois de se mudar. A do 42? Dona Celinha? Mora sozinha. Morava com a mãe mas a mãe morreu. Boa moça. Um pouco... E o porteiro fizera um gesto indefinido com a mão, sem dizer o que a moça era. Fosse o que fosse, era só um pouco. A conversa começou com apresentações e troca de informações – “Nélio”, “Celinha”, “Capricórnio”, “Leão”, “Daqui mesmo”, “...
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Uma divertida crônica de um autor que foi ícone de toda uma geração.   Desculpe, morri Marcelo Rubens Paiva Atendo o telefone e: "Boa noite, é... Marcelo?" "Quem é?" "É você?" "Quem está falando?" "Puxa, que bom, eu precisava tanto falar com você, não imagina o trabalhão que deu pra descolar o seu..." "Quer falar com quem?" "Com você mesmo, Cariri." "Cariri?" "Não era o teu apelido em Santos?" "Como você sabe?" "Pesquisei. Apelido louco. Por que te deram esse apelido?" "Olha, o que você quer?" "Sou estudante e estou fazendo um trabalho." "Como você descolou o meu telefone?" "Desculpe, Cariri. A pessoa que me deu pediu para não ser identificada. Você é uma figurinha difícil de achar, hein? Marcelão, Marcelão... Como vão as coisas?" "Indo." "O seu Corinthians, hein?" "Meu e de muita gente." "E...
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Para descontrair um pouco, em tempos tão difíceis... esta deliciosa crônica de Antonio Prata. É pavê... Antonio Prata Tem gente que se irrita, que suspira e vira os olhos como um filósofo vendo Chapolin ou um cientista lendo o horóscopo, mas eu não. Eu sorrio feliz e contente toda vez que escuto alguém perguntar, diante de um pavê, com a segurança do primeiro ser humano tocado pela luz da inspiração: "É pavê ou pacomê?!". Que coragem. Vivemos sob a égide do grande Deus Photoshop. Começamos tirando as celulites das bundas, passamos a cortar as estrias dos discursos e hoje removemos manchinha por manchinha de nossas facebúquicas personalidades. Nesta era da performance, em que cada ideia é cuidadosamente escanhoada antes de ser posta no mundo, em que cada julgamento é miligramicamente pesado para se avaliar os seus efeitos – seus likes, deslikes e retuítes –, enfim, nestes tempos bicudos em que a canalhice é perdoada, mas a ingenuidade não, o cidadão me sai c...
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O dia em que Willian Bonner chorou Cidinha da Silva O Jornal Nacional aproximava-se do fim e seguindo o roteiro diário viria algo de impacto para encerrar a espetacularização da notícia no horário de maior audiência dos telejornais. O narrador de voz bonita, terno impecável e cabelos charmosamente grisalhos anuncia um caso surpreendente no sertão do Brasil. Um adolescente de vida miserável é flagrado ao roubar um bombom na vendinha da região. A repórter responsável pela cobertura percebe que ali há uma boa história para entreter os telespectadores fiéis e resolve levar a notícia do roubo à mãe do garoto para compor o drama que antecipará a novela das nove. O cinegrafista, depois de ter filmado o menino cabisbaixo e mudo na delegacia, inclui as devidas tarjas no rosto, pois o pequeno infrator tem apenas 13 anos, fecha dramaticamente o ângulo da câmera no bombom solitário sobre a mesa do delegado e, junto com a repórter, ruma para a casa daquela que roubaria a cena e emo...